Suicídio de jovens homossexuais e o papel da psicologia

Pesquisa divulgada em Nova Iorque, em 18/04/2011, indica que o número de jovens homossexuais que se suicidam é cinco vezes maior que o número de jovens heterossexuais. É um grande sinal de alerta para se pensar em políticas públicas que promovam melhorias nas condições de vida de um grupo vulnerável socialmente. 

Diante deste grave problema social, é importante pensarmos como a psicologia pode colaborar para mudar essa situação. Primeiro é preciso deixar claro que a homossexualidade não é uma doença ou transtorno mental que motive o suicídio ou qualquer outra violência contra si mesmo. É importante  ressaltar que, desde 1999, o Conselho Federal de Psicologia proíbe qualquer ação de psicólogos que possam colaborar com uma representação da homossexualidade como doença ou anormalidade, bem como realizar terapias para mudança de identidade sexual. Se você ouviu, presenciou ou sabe de algum psicólogo que, na prática profissional, considera a homossexualidade como transtorno e propõe cura, denuncie ao Conselho Federal de Psicologia.



Para a psiquiatria, a homossexualidade não é doença, mas quando é experiênciada como sofrimento, seguida de sentimentos, impulsos, atitudes e comportamentos que contrariam a própria pessoa, lhe é atribuída um transtorno egodistônico.  Dessa forma, a psicoterapia não tem por objetivo mudar a orientação sexual do indivíduo, mas ajudá-lo a lidar com sua sexualidade, se refazer enquanto sujeito sexual.

Alguns psicólogos, sobretudo os evangélicos, acreditam que a psicoterapia deve curar a homossexualidade, quanto o sujeito tem uma queixa de sofrimento. Mas se um indivíduo chegasse até um psicólogo com uma queixa de sofrimento por racismo, o profissional deveria ajudar o paciente a mudar de cor, ou lidar com estas questões que não são pessoais, e sim sociais?   

O próprio conceito de transtorno egodistônico é questionável, pois o fato do  sujeito não aceitar seu desejo não diz respeito somente a ele, mas a todo um sistema social que exige determinada forma de sexualidade e condena outras. Só deveríamos considerar egodistônico um sujeito que vivencia uma sexualidade valorizada socialmente, mas mesmo assim a rejeita e sofre pelo fato do seu desejo corresponder ao que é esperado dele, o que, até onde sei, não ocorre em nossa sociedade.    

É bom deixar claro que não existe um “sofrimento homossexual”, assim como  não existe um psiquismo homossexual. Não há uma essência psicológica homossexual que seja oposta a uma psique heterossexual. Quero dizer com isso que heterossexuais e homossexuais não são opostos, e se os homossexuais têm uma vivência ampliada de sofrimento, isso não faz parte de uma suposta natureza humana. A natureza desse sofrimento é consequência de um sistema político em que a heterossexualidade é considerada uma experiência obrigatória, natural, saudável e louvável, enquanto a homossexualidade é considerada desvio ou anormalidade. Essa naturalização da sexualidade tem consequências, pois primeiro o sujeito aprende que a homossexualidade é anormal para depois sedeparar com o seu desejo.    

É preciso ressaltar também que a personalidade é construída a partir da relação com o outro, necessariamente a partir de um ideal, que em nossa  sociedade é um ideal heterossexual. Todas as referências positivas fazem parte da identidade heterossexual, enquanto todos os referenciais negativos são relegados à homossexualidade. Essa moral dualística faz com que os jovens, ao construírem sua personalidade, identifiquem na heterossexualidade aquilo que devem ser e, no desejo pelo mesmo sexo, uma impossibilidade de realizar esta idealização.

Quando há alguma proposta de positivar a homossexualidade, surge também à acusação de promover a experiência gay, como se a exigência simbólica da  heterossexualidade não matasse tanta gente, mesmo assim, essa exigência é promovida na mídia, nas escolas, nas religiões e na família. A ideia de uma representação positiva da homossexualidade é também complexa, pois termina dividindo os homossexuais entre os que se adequam ao modelo de normalidade e os mais subversivos, que terminam sendo rejeitados pelos próprios homossexuais, o que impossibilita uma experiência de solidariedade e diminui o suporte social.   

Essas políticas identitárias que visam promover a homossexualidade a um  status de igualdade podem ser eficazes na redução de danos mas, se quisermos resolver o problema de fato, precisaremos descontruir a ideia de heterossexualidade como natural, de homossexualidade como oposição e, mais ainda,  de que as identidades sexuais se resumem a duas posições opostas.

Alguns psicanalistas já advertiram do engano de considerar as identidades como algo da natureza. Jurandir Freire Costa já problematizou que a identidade é um efeito da linguagem que oferece duas únicas possibilidades aos sujeitos, e sugeriu que a palavra homossexual fosse retirada da prática clínica, pois ela não diz o que o sujeito é. Paulo Roberto Ceccarelli acrescenta que a homossexualidade é um artefato classificatório patologizado, enquanto  Contardo Calligaris adverte sobre a impossibilidade de escapar de toda montagem imaginária e negativa que carrega a palavra homossexual.


Assim, enquanto os psicólogos devotarem todos seus esforços à psicoterapia para resolução desse problema, a psicologia pouco poderá contribuir para eliminar o suicídio de jovens homossexuais.  É trabalho de bombeiro - apagar as chamas! É preciso uma posição mais política, que os psicólogos sociais têm reclamado estar ausente da psicologia, e que está para além da clínica, embora possamos combinar as duas coisas. Enquanto o modelo de sociedade que está alicerçado numa heterossexualidade como norma ou como vivência privilegiada não for questionado, essa mudança não será efetiva.

Campanhas como: “eu sou gay”, “ser gay não é errado” podem ser muito  positivas, mas, se não questionarmos os processos sociais que tornam as pessoas normais ou anormais, sadias ou patológicas, os suicídios continuarão acontecendo, não por conta dos sujeitos, mas na conta de um sistema social. Não adianta tentar inserir os sujeitos dentro das normas hegemônicas, é preciso questionar as normas se, de fato, desejarmos um mundo melhor e mais justo.




Gilmaro Nogueira, Psicólogo Clínico, Especialista em Estudos Culturais História e Linguagens, Mestrando no Programa Multidisciplinar Cultura e Sociedade (UFBA), Pesquisador do Grupo de Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa em andamento: A significação das experiências não-heterossexuais em Salvador.


@psicologiaqueer / gilnog@yahoo.com.br

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