Promiscuidade de cu é rola!


Para mim, liberdade é muito pouco.
O que eu quero ainda não tem nome.
Clarice Lispector


Cansei.

Ando cansado de ver LGBT's comprando o discurso do opressor e posando de bonzinhos, criticando a tal "promiscuidade" e defendendo, até, a monogamia.

Toda essa reflexão minha já vem há algum tempo, mas acentuou quando, esta semana eu vi num grupo do Facebook que eu participava, uma discussão sobre a aprovação do remédio Truvada, da Gilead Ciences, nos Estados Unidos, como um remédio capaz de prevenir o HIV.

O Truvada já era usado em coquetéis antiaids desde 2004, mas só agora será vendido lá como uma droga que impede a infecção em pessoas saudáveis. Isso após anos de estudo, mundialmente chamado IPREX (Iniciativa Profilaxia Pré-Exposição), que envolveu médic@s, cientistas, estudantes, pesquisadores e 3 mil voluntári@s de seis países, incluindo o Brasil e chegou ao extraordinário resultado comprovando a capacidade de reduzir a infecção em 44 % dos homens gays saudáveis e em 75% (!), num outro estudo ampliado com casais heterossexuais onde um deles é soropositivo. E, em nenhum momento o Estudo Iprex pregou a abolição da camisinha, ao contrário, todos os voluntários eram orientados para o uso de preservativos e cuidados.

Ora, isso seria para se comemorar, não? E comemorar muito, não? E aplaudir muito, não?

Não! Mas não. Aí eu fui tentar entender o porquê. Confesso que não entendi muito bem, mas vamos lá.

Desde que a epidemia de Aids começou, ela sempre foi um prato cheio para @s moralistas de plantão. E para religiosos fundamentalistas, conservador@s, para fiscais do cu (e da vagina, boca, mãos, etc.) alheio... para os que vivem com o dedo em riste apontando o que @ outr@ faz, provavelmente por que morrem de desejo de fazer o mesmo, mas o seu superego que Freud tão bem falava, não permite. Então se corroem no desejo. Como não fazem, querem destruir aquele e aquela que faz, matando no outro acreditam que estão matando o seu próprio desejo, vontade. Precisam colocar o outro como um bode expiatório. Agora, vem cá, o surpreendente é ver LGBT's, militantes inclusive, condenando a divulgação do estudo alegando que "vai aumentar a promiscuidade". Ou seja, uma descoberta cientifica deveria ficar escondida, sob censura, em nome da moral e dos bons costumes. Foi essa discussão que vi nesse grupo, grupo de "militantes", tristemente. Seria preferível, então, que a contaminação continuasse, gerando sofrimentos imensos, gastos com internações, dinheiro público envolvido, tudo por temerem a promiscuidade? 

Qual é o mal da promiscuidade? Eu, realmente, não sei... A doença é a Aids, provocada pelo HIV, um vírus que ganhou uma dimensão cerceadora e um monte de símbolos e metáforas, mas é um vírus somente, um vírus frágil, inclusive, que tem que ser duramente combatido, sim, mas por que causa uma doença e não ser usado como defesa de uma moral.

Muitos LGBT's, militantes inclusive, defendem um comportamento "certinho"; "impecável"; "exemplar" – teve até uma transexual defendendo a monogamia -, "bons costumes", "fidelidade"; tudo muito lindo e limpinho, cartesiano, defendem o "correto". Ok, nossa sociedade atual tornou-se extremamente conservadora e acabou repudiando importantes conquistas de liberdade, liberdade essa que tantos e tantas lutaram para conquistar no passado. Mas penso que LGBT’s não precisavam comprar esse conservadorismo de forma tão radical. E pergunto: Esse não é o mesmo discurso de todos os nossos opressores? A palavra "promiscuidade" foi usada, desde sempre, para cercear a liberdade sexual. Sua, inclusive, não apenas a do próximo.

Na ânsia de conquistarmos Direitos que nos são cerceados, o movimento LGBT cai num outro equívoco, o de se comportar de acordo com a moral deles, dos opressores heterossexistas e heteronormativos, algo como "vejam como somos bonitinhos e bonzinhos, nos apoiem pelo amor de Deus!"... Pois eu vos digo, não adianta nada isso. Ao cruzarmos uma esquina com um bando de homofóbicos, eles não se importarão em nada se você é abstêmio ou não, promíscuo ou não, pagador de imposto ou não, cumpridor de deveres ou não. Bastará você ser LGBT, só isso, para ser morto. Por mais "correto" que você se comporte, isso não fará com que direitos sejam conquistados. A homofobia não está sujeita à sua moral, seja ela qual for... É engano pensar que seremos mais aceitos agindo conforme a moral atual. Não devemos buscar aceitação, mas direitos iguais. Ninguém é obrigado a aceitar nada nem ninguém, mas a respeitar direitos. E você merece os mesmos diretos, seja você um promíscuo ou não.

Acho que você tem que definir o "certo" e o "correto" para você mesmo, não para o outro. Nenhuma luta te dá o direito de ser juiz ou juíza de outrem, nenhuma, principalmente uma luta como a nossa, que usa tanto a palavra "diversidade", ou será que a tal diversidade que pregamos é uma mera falácia? Aceito a sua diversidade desde que ela seja muito parecida com a minha diversidade... risos... é isso? Nossa, como ficamos parecidos com o inimigo, não? Quase idênticos... terei que concluir que, segundo vocês, moralistas, em nome do combate à promiscuidade as pessoas devem continuar morrendo? Melhor ter aids que tomar um remédio que a previne? É isso? Você defende o obscurantismo e a censura, desde que estas combatam a promiscuidade? Repito: por que a promiscuidade te incomoda tanto? Medo de perder algo, perder @ companheir@ para a promiscuidade? Ora, te falo com clareza: não se perde o que não se tem.

Não. Não será em nome de luta nenhuma que eu vou ficar defendendo a opressão, a censura e a caretice. NÃO! Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros trazem dentro de si a carga saudável da transgressão, transgressão amorosa, inclusive. Não vou defender a caretice para ficar "de acordo" com o que os outros consideram. Quero questionar sempre, nunca me adaptar. É por isso e somente por isso que estou nessa luta desde 1978... ou antes, até...

O Truvada veio para libertar. É um recurso a mais, veio para somar na luta contra o HIV e a Aids. É um avanço. Conhecimentos científicos têm que ser oferecidos a tod@s, inclusive a@s LGBT's, apropriados por tod@s, sejam promíscuos ou não. Promiscuidade é um conceito relativo. E vamos tirar essa toga de juiz/juiza, se realmente queremos um mundo melhor e mais livre.


Por: Ricardo Rocha Aguieiras
Aguieiras2002@yahoo.com.br
www.nossostons.com

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