Marcha das Vadias acontece em Brasília dia 26 de MAIO, Vamos vadias?


“Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)”, texto de uma garota transgênera
Segue, abaixo, um lindo e emocionante texto da Vivi, uma garota transgênera, que achamos importante compartilhar. Reproduzido do blog dela: http://porcausadamulher.wordpress.com/2012/05/14/por-que-ir-a-marcha-das-vadias-uma-resposta-pessoal/
A luta feminista é por todas as mulheres que se sentem mulheres, independente da nossa condição biológica. Estamos todas juntas! o/
Por que ir à marcha das vadias (uma resposta pessoal)        
Espero que você tenha amigxs interessantes o suficiente para ter ao menos escutado algo (bom, mesmo que crítico) sobre a(s) marcha(s) das vadias mundo afora. Caso não tenha — e não evito estranhar as razões pelas quais você estaria lendo este post –, duas sugestões: (1, que listas parecem ser o mote desses nossos tempos produtivos) leia um pouco, informe-se sobre as lutas políticas contemporâneas, discuta com a intenção de aprender, e  (2) item que é potencialmente consequência direta de (1), reavalie suas companhias.
En passant, a marcha das vadias, originalmente denominada slutwalk, consiste em um protesto por direitos humanos. Uma daquelas marchas aludidas por Paulo Freire, cujas energias estão entre nós:
“Eu morreria feliz se eu visse um Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. De marcha dxs que não têm escola, marcha dxs reprovadxs, marcha dxs que querem amar e não podem, marcha dxs que se recusam a uma obediência servil, marcha dxs que se rebelam, marcha dxs que querem ser e estão proibidxs de ser. Eu acho que, afinal de contas, as marchas são andarilhagens históricas pelo mundo.” [vídeo aqui, a partir de 1:15]
Mais especificamente, a marcha das vadias é uma marcha pelo respeito incondicional às mulheres [1], pelo direito de exercerem suas sexualidades, suas liberdades sociais, e de não serem vítimas de violências impunes-ignoradas. O episódio que se constituiu em fagulha pra marcha foi uma infeliz  recomendação feita por um policial em uma palestra sobre segurança no campus da York University, Mulheres devem evitar se vestir como vadias para não serem vitimizadas. Aspectos mais específicos da marcha podem ser encontrados aqui.
Caso essas razões não x convençam a participar da marcha — e você tem toda a legitimidade para não se convencer –, e caso você se convença também, gostaria de trazer um pequeno relato pessoal. Por essas coincidências do mundo, estive morando na cidade de Toronto durante o primeiro semestre do ano passado, quando se realizou a primeira marcha das vadias, a slutwalk toronto.  E, embora tivesse sabido da marcha um tanto em cima da hora, ainda pude participar da última reunião de organização e da marcha em si.
Pois então. Talvez seja relevante mencionar, neste momento, o fato de que sou uma pessoa transgênera, ao menos parcialmente identificada com a categoria mulher. E muitas de minhas experiências de gênero estão relacionadas com os monitoramentos e controles sobre a quem, como, e onde se autoriza a expressão do ‘feminino’ [2]. Foi a partir da consciência destas opressões que se gerou a indignação associativa entre minhas experiências pessoais, o episódio do policial infeliz e as violências diárias contra mulheres pelo mundo, indignação que me impeliu a participar do slutwalk.
As pessoas que me conhecem saberão que não me sinto muito à vontade em manifestações públicas, estes atos que explicitam posições políticas muitas vezes sob olhares de estranhamento e-ou discordância. Talvez minha participação nestes atos me faça sentir vulnerável a estes olhares — algo que deve se relacionar em algum nível com minha identidade de gênero deslegitimada. Sei lá. Mas após algumas horas de indecisão, decidi sair de casa como a mulher que era. Ou a mulher que circunstancialmente existia naquele momento, e que proclamava sua legitimidade — mesmo que tardia.

[Mas não saímos todxs, todos os dias, de maneira circunstancial? Ou isso seria específico às transgeneridades? Enfim.]
O dia estava nublado, e ventava frio. A caminhada de minha casa talvez durasse em torno de dez minutos, quinze em saltos. À usual insegurança das caminhadas gênero-transgressoras se somava à vulnerabilidade que os protestos costumavam me trazer, e a claridade cinza do céu, um tempo-espaço mais complicado para quem tentasse ‘se passar’ pela feminilidade cisgênera (ou seja: para parecer uma mulher “””biológica”””, como parecem preferir).
Mas algo foi mudando conforme me aproximava do ponto de partida da marcha.
Pequenos grupos já rodeavam as pessoas da organização, com seus dois megafones, alguns equipamentos de som e cartazes. Aproximei-me para ter uma das primeiras interações sociais como uma mulher transgênera, e não, não morri — suei e tremi, é verdade. Pediram-nos que caminhássemos até um parque próximo para convidar xs passantes a participar da marcha.
Éramos um grupo de seis pessoas, que se dividiu em três duplas. Eu e uma garota. Como não houvesse muitxs passantes, começamos a conversar, compartilhar nossas histórias. E a chamar gente pra marcha, um esforço tranquilo tomando-se em conta que boa parte das pessoas andando pelo parque já se dirigiam a ela.
Então, a interação era mais de boas-vindas que de convencimento. O que me facilitava muito a vida: sendo o convencimento maneira de ‘vender’ determinada(s) ideia(s) a outrem, não poderia me sentir segura a partir de minha posição de gênero usualmente deslegitimada. Em realidade, aos poucos pude notar uma espécie de auto-confiança emergindo.
Bem. aos. poucos. Até hoje.
A garota e eu nos sentimos com confianças suficientes para falar de aspectos bastante pessoais de nossas vivências. Havia uma certa energia que nos permitia isso: o fato de estarmos naquela marcha e de estarmos ajudando (ainda que de forma muito pequena) na sua organização nos inspiravam fortemente. E então procuramos episódios longínquos de nossas existências, fagulhas de uma sexualidade ou gênero inconformes, ou de opressões a elxs.
E, neste contexto, ela menciona ser sobrevivente de abuso sexual.
E de como o responsável pelo crime era um conhecido seu.
E de como ela estava vestida na ocasião — nada ‘vadia’, para desconcerto do policial.
Havia uma dor imensurável na voz da garota. Era a dor dos momentos irreversíveis nas nossas vidas, a dor da impunidade dos crimes contra nós. Não me lembro do que lhe falei — e o que se pode dizer, afinal –, mas a dor que senti era terrível.
E terrível, não porque perfurasse, jorrasse sangue, ou latejasse, mas porque aturdia através do silêncio que habitava os olhos detrás dos óculos de grau.
Silêncio que expressava, jamais se questione, perfurações, jorros de sangue, latejos. Silêncio que se iria despertando a cada conversa com as gentes do parque, e que se passava a levantar nos coros e bordões a se iniciar; silêncios que, de tanto ocuparem mentes, puderam ocupar umas tantas ruas na cidade, atrapalhando-lhes o trânsito.
Silêncios, afinal, que de tanto se acostumarem à casa mental, somente sairiam em gritos, em passadas firmes, em sorrisos, em lágrimas.
Lágrimas que choramos em diversos momentos, saindo-nos de nossos silêncios, ainda que caladas. E presenciar o choro da garota, a algumas pessoas de distância, foi possivelmente um dos presentes mais bonitos que já recebi do universo.
É por isso que acredito na marcha das vadias.
Notas.
[1]- o foco me parece em mulheres cis, no geral — ainda que as trans estejam explicitamente incluídas também na marcha original.
[2]- muitas outras se referem às opressões derivadas de ser vista socialmente como mulher, em especial uma mulher transgênera; neste caso, reconheço a limitação que tenho em oferecer um testemunho mais apurado, afinal isto não ocorre com muita frequência.

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