Afinal, a Bíblia aceita ou não os gays?



Reverendo Márcio Retamero
Desde quando eu criei este blog tenho recebido muitos e-mails de agradecimentos de gays e lésbicas de toda a parte do Brasil (alguns até de países de língua portuguesa do exterior) que se sentem ajudados de alguma forma com os artigos aqui postados, o que me traz uma enorme sensação de estar no caminho certo.
Mas entre estas mensagens gratificantes, também recebo muitos e-mails de homossexuais que sofrem com conflitos existenciais por causa de sua sexualidade. A maioria destes são cristãos. Justificável, pois é do conhecimento de todos que o cristianismo, a maior religião em número de adeptos do mundo, é também aquela que mais tem perseguido os homossexuais ao longo da História.

Mas afinal, a Bíblia condena mesmo os gays?
Quem vai responder isto é o Reverendo Márcio Retamero, teólogo, Mestre em História Moderna (UFF/Niterói), Pastor da Comunidade Betel e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo (RJ), militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos e colunista da revista eletrônica A CAPA.
Quando fui apresentado ao Reverendo, na ocasião da noite de autógrafos do amigo Alexandre Calladini, confesso que fiquei um pouco reticente. Como um budista praticante que sou, às vezes mantenho um certo distanciamento de alguns tipos de religiosos cristãos, por diferenças básicas de nossas filosofias e porque cristãos geralmente defendem suas crenças de forma exasperada e calorosa… “O que dirá um Pastor!”, imaginei.
Mas, felizmente, meus pré-julgamentos foram todos por água abaixo logo no primeiro “dedo de prosa”. O carisma e a coerência do Rev. Márcio Retamero foram suficientes para que nossa conversa se estendesse do Museu da República até uma mesa de um restaurante numa noite pra lá de quente do Rio de Janeiro, em um bate papo super prazeroso que me fez perceber que há uma luz se acendendo para os gays cristãos “excluídos” e que no meio de tanto fundamentalismo existem, sim, pessoas intelectualizadas e lúcidas dispostas a fazer o bem.
Confiram a entrevista com o Rev. Márcio Retamero e saibam mais sobre o livro Pode a Bíblia Incluir?, que ele acabou de lançar pela Editora Metanóia. E bom Natal a todos! ;)
Subvertendo Convenções – Seu livro fala em “desconstruir” a Bíblia, dogmas e pensamentos teológicos para uma possível leitura inclusiva das escrituras. O que seria esta “desconstrução” ?
Desconstrução bíblica é desvelar, desvendar o texto, buscar seu local de origem, sua situação histórica, os significados das palavras hebraicas [Primeiro Testamento] e gregas [Segundo Testamento], línguas originais da Escritura. É, também, buscar informações sobre os autores, a construção dos textos, o público alvo daqueles textos. Interdisciplinaridade é a palavra chave aqui, pois a história, a antropologia, a arqueologia, a fililogia etc. nos auxiliam neste processo de desconstrução. É preciso desconstruir também o ciclo hermenêutico, ou seja, a interpretação aceita majoritariamente daqueles textos. Quando partimos do método histórico-crítico de análise das Escrituras, o único que serve à teologia inclusiva, feminista, libertária, então, enxergamos coisas ali postas jamais vistas.
SC – Sua posição é clara ao apontar os deputados e senadores da Frente Parlamentar Evangélica como os principais inimigos da causa LGBT do Brasil. Na sua opinião, de que forma o fundamentalismo pode ser combatido?
O fundamentalismo tem que ser combatido em três frentes, a princípio: no nível político, respeitando a Carta Magna do Brasil, que proíbe todo e qualquer tipo de preconceito; que garante igualdade diante da Lei para todos e todas; que estabelece o Estado laico. É inacreditável o “casamento” pernicioso, maléfico, pervertido entre a religião e a política no Brasil. As últimas eleições provaram que, entre nós, infelizmente e para a desgraça de muitos, religião e política estão de mãos dadas.
O segundo nível é o legal: fundamentalistas se escoram na “liberdade de expressão” para atacar minorias sociais como os LGBTs e os religiosos de matriz africana. A liberdade de expressão é limitada numa democracia, pela lei. Liberdade de expressão não é salvo-conduto para sair por ai dizendo o que lhe vem à cabeça sem responsabilidade social e criminal.
O terceiro nível é no campo religioso e aqui está a base, o alicerce do meu trabalho: demonstrar que uma leitura literalista, ainda que seletiva, das Escrituras, não é possível, tampouco desejável. Até o século XIX, quando nasce então esse câncer chamado fundamentalismo, jamais se interpretou o texto bíblico ao “pé da letra”.
SC – Uma passagem bíblica isolada já é suficiente para os fundamentalistas basearem suas crenças, como aquelas que supostamente condenam a homossexualidade. Na sua opinião este tipo de pratica é um erro. Por quê? Que tipo de perigos pode haver com uma interpretação literal de trechos bíblicos?
Existe uma regra de ouro, reconhecida até mesmo pelos fundamentalistas, embora eles a pratiquem seletivamente. A regra é clara: “texto fora de contexto é pretexto”. O erro dos fundamentalistas é não aplicá-la à toda Escritura, mas somente nos textos que lhes interessam, geralmente para afirmarem positivamente suas doutrinas. Eles vão ao texto à priori, ou seja, eles forçam o texto para enquadrá-lo nas suas interpretações. A regra de ouro, se aplicada nos textos que supostamente condenam a homossxualidade, por exemplo, demonstrará que a Escritura não condena a homossexualidade como nós a entendemos hoje.

Livro do Rev. Márcio Retamero
O perigo de interpretarmos a Bíblia ao pé da letra é imenso. A Bíblia mandar matar! A Bíblia pode ser usada, como foi, para legitimar a escravidão humana. A Bíblia é misógina… Assim como os fundamentalistas islâmicos encontram numa interpretação errônea e literal do Alcorão motivos para explodir bombas mundo a fora, os cristãos fundamentalistas encontram no texto bíblico interpretado literalmente, motivos para assassinarem todos os LGBTs: “são passíveis de morte ps que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Romanos 1.32).
SC - Pode-se dizer, então, que as interpretações bíblicas que se têm hoje acerca da homossexualidade são arbitrárias?
Arbitrárias, caducas, sem sentido, espúrias, malvadas, maléficas, perniciosas, sem razão de ser!
SC – Em sua obra você diz que, materialmente falando, a Bíblia é literatura e suas pesquisas esmiuçam a maneira como ela foi “montada” e reeditada pelos homens ao longo da Historia. É possível analisar as escrituras de uma forma crítica sem com isso abalar o seu caráter sagrado?
Sim, é possível. Uma coisa é o estudo crítico, outra é a hermenêutica, a interpretação no objetivo de retirar destes textos um alimento para a alma. Contudo a hermenêutica não pode ser alienada do estudo crítico. Como retirar alimento e sentido espiritual para os nossos dias, das Escrituras? Lendo-a existencialmente. É somente numa leitura existencialista que se demonstra o caráter “sagrado” das Escrituras, quando elas falam a mim: homem gay, nascido no século XX, vivendo no século XXI. O “sagrado” da Bíblia não está em sua materialidade, nisto, a Bíblia é somente texto literário.
SC – Baseado em sua vivência como Pastor da Comunidade Betel, quais são os maiores transtornos que os gays cristãos excluídos das igrejas costumam apresentar?
Muitos! Baixa auto-estima ou nenhuma. Pulsão de suicídio muito forte. Infelicidade do ser o que se é. Passividade diante da existência. Desestímulo para viver e realizar. Medo. Rejeição e auto-rejeição. As vítimas de abuso bíblico sofrem muito e, infelizmente, muitos sucumbem.
SC – De que forma os gays cristãos podem se libertar das amarras do fundamentalismo para ficarem em paz consigo mesmo e com sua religião?
Buscar e se integrar numa igreja inclusiva. Estudar profundamente as Escrituras. Se reconciliar com o Sagrado a partir das suas situações existenciais. Buscar auxílio espiritual no aconselhamento pastoral com pastores e pastoras inclusivos. Nos casos mais sérios, buscar ajuda dos profissionais da psicologia e psiquiatria. O mais importante é entender que nada de errado existe na homossexualidade, tudo o que Deus faz é perfeito e bom.
SC - Você acredita que as igrejas cristãs inclusivas podem ajudar a causa LGBT? De que forma?
Acredito e para isto, olho para a história. A igreja inclusiva é um bebê no Brasil, mas ela já é uma adulta de mais de quarenta anos. Ela nasce na década de 60 do século passado em Los Angeles, Califórnia/EUA e, desde sua organização, ela sistematicamente reinvindica junto ao Estado a proteção legal e a igualdade de direitos numa democracia. Isso ajudou muito na construção e implementação de políticas públicas na década de 80 nos EUA com a epidemia da AIDS. No Canadá, além da questão AIDS, a igreja inclusiva foi a pioneira e a lutadora mais feroz em relação a legalização da união homoafetiva, assim como na Europa. Na Europa Oriental e na África, a mão da igreja inclusiva está por trás das organizações das paradas do orgulho e nas marchas contra a intolerância e pelos direitos humanos.
Na Romênia, nossa pastora é presa todos os anos – neste ano ela venceu – por tentar realizar a parada do orgulho. Na Ásia, acontece neste momento, bem como na Jamaica, uma revolução social, a partir do trabalho das igrejas inclusivas, notadamente a Igreja da Comunidade Metropolitana (Metropolitan Community Church), denominação à qual está ligada a Comunidade Betel, a maior do mundo, presente em mais de trinta nações da terra. Na Jamaica, já citada, nós perdemos 3 pastores assassinados por homofóbicos e um líder de música sacra. No velório deste maestro, nossa igreja foi cercada por fundamentalistas homofóbicos armados de paus e pedras, que bateram nos participantes do velório e arrasaram a igreja, mas nós ainda estamos lá, não desistimos!
Nos EUA, a Santa Ceia de uma de nossas igrejas foi envenenada, levando centenas ao hospital. Atearam fogo na igreja mãe em Los Angeles na década de 70. A resistência é sistemática e feroz, matam os corpos, mas jamais a causa. A igreja inclusiva, na minha opinião, é a linha de frente da causa LGBT, pois nossos inimigos sempre se escoram na Escritura, em Deus, no “cristianismo” para nos calar e nos matar existencialmente.
SC -Afinal, a Bíblia pode ou não incluir os gays?
A Bíblia não somente inclui os LGBTs na história da salvação, bem como narra nossa história ao nos revelar relações homoafetivas (Davi e Jônatas, Rute e Noemi), além de revelar promessas espirituais (Isaías 56, dentre outras passagens). A Bíblia nos revela que Jesus Cristo, o Deus Encarnado para os cristãos e cristãs, jamais condenou a homossexualidade, antes, a entendia, como é demonstrado numa passagem memorável de São Mateus, quando o Mestre da Galiléia diz que nem todos são aptos para o casamento (heteronormativo), mas que existem os eunucos. No livro de Atos dos Apóstolos, a Bíblia conta como aconteceu a primeira inclusão de um homossexual (o eunuco etíope, mordomo da rainha de Candace) na comunidade de fé cristã pelo batismo. A Bíblia também nos pertence.

Fonte: Entrevista retirada do site Subvertendo convenções, de Kiko Riaze, gostou visite o site

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